Pokémon Mythology
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Era Uma Vez

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Era Uma Vez

Mensagem por Pokaabu em Dom 9 Jun 2013 - 7:11







Bom galera, eu já tinha conversado com o Mag sobre esse projeto, meu desejo era postar com pelo menos cinco Povs escritos, mas acho que só o prólogo não tem problema. A ideia nasceu enquanto eu assistia Once Upon a Time (Era uma vez.) um seriado muito interessante, mas que perdeu o foco e me perdeu como espectador. Enfim, eu já tenho uma fan fic de pokémon, no momento ela está trancada, mas também vou reabri-la antes de postar o primeiro capítulo aqui, espero fazer tudo isso até o final do mês. Como eu queria escrever algo meu, larguei o sexto distrito, acabou que a ideia dessa história surgiu, mesmo sendo focada nos contos de fadas, tentei deixá-la o mais original possível, mesmo não sendo algo totalmente meu, não quis desperdiçar a ideia. Espero que gostem ^.^

Bem, pesso a vocês, os que comentarem, para serem extremamente sinceros em relação aos capítulos, pode falar o que tá ruim, quotar e dar opinião na história o quanto quiser. Agradeço desde já.








   
Era uma vez, encarapitada no alto de um morro alto e curvilíneo, em um reino distante de tudo e de todos, uma velha e aconchegante casinha de madeira. Construída a partir do suor de um pai dedicado e protegida pelo amor puro de uma mãe generosa, a casa parecia sobreviver a qualquer tentativa de destruição causada da generosa e às vezes malévola, deve-se admitir, mãe natureza.
   
   Não era segredo para o pequeno vilarejo que as pessoas que habitavam a distante residência eram do antigo clã dos Encapuzados, mas eles pouco se importavam com esse mínimo detalhe, viviam em constante alegria e alguns tinham uma grande amizade e prestigio pelo casal.
   
   Moravam ali cinco pessoas, um marido e pai benevolente e uma esposa e mãe gentil, junto com eles, suas três filhas: Nora, Rubi e Alice. Cada uma era, de um jeito especial, completamente e imprescindívelmente diferente uma das outras.
   
   Nora, com seus doce nove aninhos, era a irmã mais velha. Uma garota de olhos azuis e cabelos loiros como a mãe, inteligente e protetora, vivia sua simples vidinha para apaziguar as brigas entre suas duas irmãs e embebedá-las com histórias sobre os antigos Encapuzados e seus incríveis poderes.
   
   Ao nascer, como mandava a tradição, a pequenina Nora ganhou uma capa de seda virgem tecida por sua própria mãe. Ao toque do bebê, o pano ganhou um colorido que transgredia todos os tons de azul, primeiro um forte turquesa que aos poucos foi passando a um leve tom de celeste, variando entre o cobalto e o marinho, forte como a noite, intenso como as águas de um mar revolto.
   
   A mais agitada de todas as três era a do meio: a garotinha Rubi. Com seus sete anos já fazia mais peripécias que o mais arteiro dos meninos da vila, subia em copas de árvores a todo o momento e vivia de passeios e explorações no pequeno bosque ao lado de casa. Adorava ouvir as histórias de aventuras que Nora lhe contava e repudiava de todo o coração as que o príncipe salvava a donzela indefesa.
     
   Ao nascer, como mandava a tradição, a espevitada Rubi ganhou uma capa de seda virgem tecida por sua própria mãe. Ao toque do bebê, o tecido foi tingindo-se como o sangue que escorre, vivo e translúcido, dos que são mortos por aqueles que não têm pena e nem prezam pela vida. Os olhos de Rubi, assim como os da irmã, tingiram-se da cor da capa que recebera, os olhos azuis herdados da mãe se fundiram com o vermelho transformando-se em um belo par de vistas púrpuras. Naquela noite, na noite em que Rubi nasceu, todos os cães dos arredores uivaram até o amanhecer, clamando pela nova detentora da capa de sangue.
 
   A mais paparicada e nova das três irmãs: Alice, nascera dois anos depois de sua antecessora, era uma garotinha de olhos enevoados e pedintes, que sempre conseguia o que queria. Mesmo sendo muito bondosa e meiga, não aprovava as escapadas e traquinagens de Rubi, o que fazia com que as duas vivessem em constantes discussões, que culminavam, na maioria das vezes, com uma Alice correndo sendo perseguida por cães e Rubi fugindo para casa com enormes pássaros que voavam à sua volta em meio a bicadas e mais bicadas.

   Ao nascer, como mandava a tradição, a chorosa Alice ganhou uma capa de seda virgem tecida por sua própria mãe. Ao toque do bebê, o pano não mudou de cor tampouco, pareceu se tornar mais claro ainda, translúcido como vidro, branco como os flocos de neve dos primeiros invernos. Linhas de desenhos dourados se estendiam, formando desenhos indecifráveis, dois botões de ouro surgiram para poder-se abotoar a capa a sua dona, por fim, os olhos azuis chorosos de White se tornaram acinzentados e nebulosos, o dia de seu nascimento se seguiu com incessantes pios e cantorias de pássaros espalhados pelos arredores de sua casa.

Ali vivia uma família feliz.

   Na parte nobre do reino, protegido por enormes muralhas e incontáveis vassalos, vivia o príncipe Oliver. Nascido no mesmo dia que a pequenina Alice, gozava de uma vida repleta de regalias e mimos. Correndo e brincando pelos extensos corredores do castelo, Oliver não pode deixar notar o choro de sua mãe, que ecoava alto por toda a parte.
   
   Adiantando-se e já sabendo, mesmo com sua pouca idade, do que se tratava, Oliver abaixou-se para espiar no quarto dos pais. Sentada na colossal cama real, na mesma posição de sempre, a rainha chorava no colo do rei dos Encapuzados; chorava pela guerra e a derrota eminente, pela paz arruinada, pelo clã extirpado, derramava lagrimas também, mesmo inconscientemente, pelo irmão mais velho de Oliver, a tanto tempo desaparecido.
 
   O pequeno príncipe não pode ouvir as lamúrias da mãe por muito tempo, pois, cortando o horizonte, as trombetas de guerra que o rei tanto receava tocaram e ele, parecendo já ter perdido sua batalha há muito tempo, levantou-se para se juntar os seus cavaleiros. A mãe de Oliver, refreando as muitas lagrimas que teimavam em descer, agarrou-se ao filho e o puxou para si, abraçando-o. Sem saber o porquê o garotinho também começou a chorar, abraçando-se a sua mãe como a única coisa que poderia protegê-lo de todo mal. A última coisa que pôde ver ao atravessar o grande espelho do palácio foi os ressentidos olhos negros de sua mãe.

   A Guerra cortava todos os cantos do reino, capturando e aniquilando todos os Encapuzados encontrados pelo caminho, poucos foram os que tinham poderes plenamente desenvolvidos para escapar dos fortes e armados cavaleiros do novo intitulado rei James.
 
   O pai das três menininhas apresentadas no começo da história, já sabendo do fim que tomaria as filhas se continuassem ali, concordou com sua mulher de que o melhor no momento seria fugir para longe, o mais longe possível, armaram e programaram toda a escapada, mas, infelizmente, nada saíra como planejado.
 
   Com a ajuda de uma amiga da família, os três atravessariam o véu, nova vida, novo começo. Em uma casa de madeira no meio da floresta, protegida de todos os modos esperava a avó, matriarca e Encapuzada poderosa. A fuga seria feita em partes, sendo cada menina levada separadamente. Rubi foi a primeira, na porta de casa, a criança e a mãe despediam-se para o reencontro daqui a pouco tempo. Com um estalo dos dedos da mãe, marido e filha tornaram-se outras pessoas, mendigos molambentos, um com a capa verde já tão usada e a outra encoberta pela capa vermelho sangue.
   
   Infelizmente, foi daí que o plano da família começou a dar errado. Pouco depois da partida dos dois parentes, a casinha encarapitada no topo do morro, agora não tão longe de tudo e de todos, foi alcançada pelos soldados sedentos para usarem suas afiadas lâminas. A mãe nada pode fazer, seus poderes não rondavam os âmbitos da proteção. Contudo, sabia o feitiço, sabia como fazer o feitiço que quebraria o véu, mas tinha medo, medo das consequências, pois se errasse um só passo, suas filhas nunca mais seriam vistas. As chances de falhar eram poucas, mas a chance de morte, no momento, era muita. Não hesitou mais, começou a preparar a travessia do véu no espelho que ganhara, em tempos de paz, no dia de seu casamento.
   
   Longe dali, no meio da floresta, pai e filha andavam apressados seguidos por uma enorme matilha de lobos, atraídos pelo medo e insegurança de Rubi. Não tardou, os gritos dos cavaleiros os alcançaram, os dois agora corriam acompanhados por trotes de cavalos, os lobos tentando protegê-los, uma atitude vã, eram pouquíssimos comparados ao tamanho da tropa. O pai, com um aceno da mão, fez surgir enormes raízes do chão, muitos foram derrubados, muitos continuaram. Pouco tempo depois, era Rubi que corria sozinha, seu protetor ficara para trás, convocando metade da floresta para proteção da garota. Rubi chorava, nunca pensara que na floresta que tanto explorava encontraria seu fim, a casa da avó agora perdida no meio do breu, os gritos chegando cada vez mais perto, uma voz mansa a abraçando, aconchegantes palavras, consolo. Não era o pai, sentia que ele agora não pertencia mais a esse mundo. Mas o que importava? Queria colo, carinho. Sem perceber, mãos a afagavam e a tiravam dali. Vai ficar tudo bem, dizia, tudo vai passar, dizia.
   
   O resto da família, agora estando de luto sem saberem, andava de um lado para o outro onde a mãe murmurava e lançava pós e líquidos contra o espelho, que brilhava cada vez mais. Com a guerra cada vez mais perto, os soldados quase escancarando a porta, finalmente o encantamento conseguiu ser concluído. A primeira a atravessar o véu, Alice, encorajada pelas palavras de sua mãe, sumiu de vista com sua capa branca presa ao pescoço, para onde não se sabe. Nora estava prestes a atravessar o espelho, sua mãe ainda murmurava o feitiço quando aconteceu; a porta esmurrada, a atenção quebrada, a magia desfeita. Nora foi agarrada pelas mãos fortes de sua mãe e com ordens expressas foi posta para fora de casa: Corra! Corra para longe, eu te amo, salve-se! A menina, chorosa, obedeceu a sua mãe e desvairadamente correu, como nunca havia feito antes. Lembrou-se que a capa azul a denunciaria e se livrou dela, escondendo-a em um tronco de árvore. Viu a vila, não estava muito longe, lá também estavam os soldados a postos marchando por todo lugar. Voltou a correr, descendo o morro desabalada e sem rumo, a lua como sua única luminária. Foi parada do nada, com um murro, algo sólido, aquela dor de cabeça terrível que chega de repente, na verdade, só um poste de madeira que pega desavisados que não olham para onde andam.
   
   Alice abriu os olhos sem saber onde estava. a chuva castigava sua pele, sons estranhos, mais assustadores do que os cavalos a trotarem. Uma buzina fez com que ela desse um pulo e corresse, tentava se lembrar do que fazia ali, ou o que estava fazendo antes, mas nada lhe vinha a cabeça, apenas a sensação de uma queda muita forte, uma dor latejante nas costelas. A sua frente, estava uma casa estranhíssima, formato quadrado, janelas quadradas, porta quadrada, toda quadrada. Subiu os degrauzinhos e por medo, fome e frio, bateu na porta três vezes, não demorou muito, um velinho de cabelo ralo e olhos puxados surgiu. Alice, que já estava com os dentes titilando e os braços envolta do braço, fora convidada a entrar, não pode deixar de ouvir as reclamações do velinho chinês: Dois em uma só noite? Estão achando que aqui é o que? Orfanato? A casa quentinha era um convite ao sono, tentou se lembrar novamente onde estava, nada, só dor. Um sofá à sua frente, um menino de cabelos pretos sentado nele, sem pedir licença nem obrigado, os pés molhados em cima das cochas do desconhecido, deitou e adormeceu.


 

Espero que tenham curtido. Vejo vocês quando estiver com os cinco povs escritos (Já tenho dois) e o capítulo da outra fic também, té. Alguém sabe onde ta o tópico das imagens da faixa etária? Aquele 14 ali ta dose.




Mapas:








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Última edição por Pokaabu em Sex 14 Jun 2013 - 17:18, editado 4 vez(es)
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Re: Era Uma Vez

Mensagem por Dusknoir em Dom 9 Jun 2013 - 17:34

Hey! Cheguei o/

Gostei da fic, parece ter uma história promissora e além disso ela também é envolvente, talvez pelo modo como descreveu cada situação ou de como narrou os fatos que iam acontecendo.

Os encapuzados me lembram um clã de feiticeiros que eu li do livro ''Olho do Dragão'' por acaso retirou isso da obra ou foi do ''Once Upon a Time''? Acho que vi alguns poucos episódios dessa série, não me recordo muito bem dela.

Não tenho do que reclamar do seu prólogo, apenas que venha com os capítulos! Mas antes vou destacar um trecho:

''...os pés molhados em cima das cochas do desconhecido, deitou e adormeceu. ''

Posso ter entendido a palavra destacada de forma errônea, mas o correto não seria Colcha?

Afora isso nada a frisar, apenas... Continue com o bom trabalho!
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Re: Era Uma Vez

Mensagem por Mag em Qui 27 Jun 2013 - 11:31

Ei Pok, desculpa demorar tanto comentar... blá blá blá faculdade, resenha pra entregar amanhã, isso aí.

Então, eu não comentei antes porque queria reler. Eu tinha lido isso há o quê? Uns dois meses? Eu já te disse que gostei bastante, foi uma boa introdução e que dá uma sensaçãozinha de curiosidade. Eu nunca assisti Once Upon a Time, já ouvi muito bem mas as poucas cenas avulsas que vi na TV não me atiçaram muito interesse... prefiro a Xena mesmo haushiii. Mas esses dias estou louco pra ter contato com os contos de fada originais, parece que são muito tenebrosos cara, uma coisa bem fodinha.

Enfim, em todo caso, isso quer dizer que eu tenho apenas noção de que a base da sua história é um seriado que faz releitura de contos de fadas. Espero que consiga me ambientar bem nisso aí, hein. Já te disse também que achei esse mapa que você fez muito lindão, um dia, quando eu for colocar em prática uma ideia muito louca que tenho, juro que uso ele também.

É só isso por enquanto. Tomara que consiga continuar as duas fics, mas fique sem estresse e dê o teu melhor.

Beijóka.
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Re: Era Uma Vez

Mensagem por Weird von Gentleman em Qui 27 Jun 2013 - 14:35

Olá, Pokaabu!


Once upon a time é para mim uma das séries mais interessantes que andam por aí. Não é fácil pegar num mundo já criado por alguém, ou neste caso, em vários mundos, e redesenhá-los fazendo-os coincidir com tanta precisão. No entanto, isso é o que nós aqui fazemos com as nossas fics e não nos queixamos, chegando mesmo alguns de nós a conquistar bons lugares com isso. No fim de contas, esta série não passa de uma fan fic televisiva, onde não está apenas redesenhado um mundo, mas sim uma data deles. Isto tudo para dizer que redesenhar um mundo redesenhado a partir de várias histórias é trabalho para mais do que uma pessoa, mas tenho a certeza que com empenho o irás conseguir.


No que toca a este conto que tu nos apresentaste, eu achei-o fabuloso desde o ínicio. No entanto, a partir do meio cheira-me que tiveste alguns problemitas técnicos e o texto não ficou lá muito perceptivel. Talvez por estares com alguma "pressa" de publicar o texto, talvez por causa das ideias estarem ainda verdes na tua mente, há ali trechos em que, sinceramente, eu me perdi.


A história das três irmãs está muito engraçada e merecedora de um título de "Conto de Fadas". As personalidades divergentes e o facto da mãe tecer em seda virgem os tecidos, que depois e consoante a personalidade da filha, mudam de cor, está espetacular. Os meus parabéns!


Um abraço e boa sorte cheers
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Re: Era Uma Vez

Mensagem por Pokaabu em Dom 7 Jul 2013 - 18:32

~ Olá Dusknoir, fico feliz que tenha gostado. Espero que fic supere as suas expectativas. Quando àquele final, é cocha mesmo, chocha (membro) do menino.
 
~ Mag o/, você já tinha lido em primeira mão e naquela época eu fiquei muito feliz de você ter gostado. Eu também espero ambientar bem esse mundo dos contos de fada, até estou lendo os libros Razz, já li Peter Pan e Alice, li o conto da Cinderella, mas ainda falta bastante.

~Weird *.*, não te esperava aqui, sério. Você falou que algumas partes no final ficaram soltas, ou desconexas, isso foi proposital, tentei deixar algumas coisas para o desenrolar da história.

Já tenho esse POV. escrito há bastante tempo, fiz umas cinco revisões, eu acho. Espero que gostem.



- CAPÍTULO UM -

Alice Do País das Maravilhas. 






    Os gritos longínquos dos guardas do palácio alertavam a Morgiana que suas pouquíssimas horas de descanso, essas de extrema raridade, haviam chegado ao fim. Para concretizar seu pensamento, o sino pendurado na torre do pátio dos escravos começou a tocar, em consequência, seus pequenos amiguinhos, cada um posicionado estrategicamente em cada um dos inúmeros casebres, acompanhavam seu mestre na já conhecida melodia do inicio de mais um dia de trabalho forçado.

    Os Gênios e os mestiços levantavam-se, um a um, cumprindo o ritual sagrado: todos os dias inspeção dos guardas, banho se for inicio de semana e “café da manhã”.  Era impossível nomear a nojenta refeição servida aos servos com expressão que remete a tão convidativos alimentos. Para os escravos? Pensar em café da manhã seria imensa regalia. Viviam fracos e doentes, tendo de se contentar com mingau em dia de festa, ou pão passado e bolorento no restante do tempo. Morgiana, já de pé, agitou os dedos trazendo sua enigmática fumaça azul à vida, passou a mão pelos cabelos lisos, levando-os logo em seguida ao resto do corpo, limpando-os. Não precisaria lavar-se como os outros, sua magia daria conta, mas manter a aparência submissa era importante. Infelizmente não se poderia dizer a mesma coisa dos que acordavam com ela. Gênios de sangue puro, o azul forte de suas peles sempre entrava em contraste com o azul-bebê da pele de Morgiana, fracos pela falta de alimento, não podiam usar magia.

    Ela, mesmo sabendo que seu plano já estava quase completamente arquitetado, às vezes ainda se perguntava se ainda era sensato continuar ali. 

    Ao longe, ela sabia, o deserto de Agrabah se abria em infinitas possibilidades. Ser livre, poder fazer o que quiser na hora que quiser. Mas como ser livre com seu povo sofrendo nas mãos do sultão tirano? Impossível, não aguentaria.

    Vendo os Gênios correndo para lá e para cá, Morgiana pensou em tudo que seu povo havia passado antes de chegar até ali. Ela conhecia bem a história, principalmente os podres da história. Tudo havia começado com Aladim e seu gênio. Alguns ainda acreditam que ele seja o verdadeiro tirano da história, mas o príncipe Fadil sabia a verdade e havia contado a ela. Foi Jasmine. O antigo Gênio amigo do Sultão Aladim era o Shaman dos Gênios, como seu rei, nunca trairia sua localização. Foi ela, a princesa cascavel, ela descobriu tudo, ela envenenou Aladim e capturou, aos poucos, todos os Gênios. Havia sido assim que o príncipe lhe contara e era assim que ela preferia acreditar.

    A fila se formava rapidamente à porta de saída do casebre, ninguém queria dar motivos para ser castigado logo pela manhã. Morgiana viu algumas Gênias esconderem seus ovos em buracos no chão de terra, as mãos calejadas por terem de cavar em terra árida, valores de mães protetoras. Morgiana também havia nascido de um ovo, há muito tempo atrás, a localização exata nunca lhe foi dita, só o que ela sabia é que nunca fora livre, saíra da prisão do ovo para a prisão dos homens. O rangido familiar do trinco sendo aberto chegou aos seus ouvidos. Alguns Gênios se endireitaram na fila, qualquer desculpa era valida para uma retaliação logo pela manhã. Uma pequena fresta da porta se abriu e por poucos segundos a mestiça pode vislumbrar um finíssimo raio de sol. Morgiana manteve seus olhos fixos à sua frente, tentando parecer indiferente ao máximo, fingindo ser o que eles achavam que ela era: um ser sem sentimentos, feito para cumprir os seus desejos e prazeres. Mesmo sem ver, ela sabia quem entrava, era o capataz, Butruz, um velho resmungão e manco, mas de mão firme e pesada, as quais Morgiana não queria de forma alguma voltar a sentir.

    Aconteceu há muito tempo, quando Morgiana ainda não tinha controle sobre seus poderes, sendo tão frágil quanto um bebê humano. Ela estava limpando o salão do palácio, um salão enorme no qual já vinha trabalhando dois dias e duas noites sem descanso. Na terceira noite, exausta e esfomeada, Morgiana ouvira passos úmidos vindo em sua direção, não demorou muito, Butruz adentrou o local, mesmo estando fechado para limpeza, com as botas cheias de lama, saltitando e pulando de propósito, ainda não era manco, mas naquela noite ficou, por intermédio de Morgiana, que voou para cima dele como um tigre branco do deserto. Teve o pior dos castigos, das próprias mãos e outras partes do velho. 

    Relembrar daquele momento, ao contrário do que possa parecer, não deixava Morgiana triste ou enraivecida. O único sentimento que aflorava em seu peito era vingança, que por diversas vezes é confundida com a raiva, sendo os dois sentimentos coisas totalmente diferentes, mas que se completam, se usados na medida certa. O homem caminhava calmamente entre a extensa fila, parando às vezes para amedrontar uma ou outra criança, ou para puxar o cabelo e observar os dentes de um escravo. Sua presença exalava medo, trazendo junto um forçado respeito pela parte dos atarracados Gênios. Morgiana também tinha medo, mas não por ela, pelos outros, seus companheiros não falavam há muitas luas, sempre amuados e tristes. O destino de um Gênio era viver livre, viajando por terras e terras felicitando àqueles que mereciam ser premiados com seus três desejos, não viver acorrentado. Morgiana sabia disso e estava trabalhando no assunto, faltava pouco agora. Butruz chegou até e ela e estacou, como sempre fazia, seus olhos azuis profundos marcados pelas rugas de idade pareciam atravessar as roupas de Morgiana. Ele apalpou suas nádegas, logo após subiu aos seus seios. Ela se conteve, Butruz desceu seus lábios pelo seu rosto, beijando seu pescoço levemente, aos suspiros. Já era rotina, e como ela previa, ele terminou com um beijo em sua boca antes de começar a falar.

- Hoje você está no ponto, mestiçinha imunda. – O velho deu um aperto forte em suas ancas e mordeu os lábios com força, suas rugas cada vez mais acentuadas. Fica mais doentio ainda quando está excitado, notou Morgiana. – Faz isso de propósito? Não faz, escrava? Quer provar mais um pouco do meu castigo? Não se preocupe, não esperará muito. – Ele mediu a menina dos pés a cabeça. - Prometo-lhe.

  A mesma ladainha de sempre, repetida de semana em semana, quase nunca passando de duas. Frases soltas ao vento, nada daquilo se concretizava. Tem medo de perder a perna dessa vez, não tem velho?

    Ninguém se mexeu, muito menos ela, seus olhos continuavam esvaídos, vidrados, como se no além. Teria seu momento de vingança e de raiva, os dois, na medida certa.

    Terminada a inspeção, o capataz saiu, arrastando suas calças infladas e o turbante mal colocado. Com um abrir preguiçoso, escancarou a porta que dava para o enorme pátio dos escravos. A aurora tardia, sem convite, iluminou todo o espaço, as noites frias do deserto se tornaram lembranças distantes com o aconchego trazido pelo sol da manhã. Como se cronometrado, os outros casebres também se abriram, revelando um montante de Gênios que saiam de seus dormitórios, quase dez mil escravos, desde crianças a idosos, mulheres e homens, um mar de azul. Mesmo com os guardas estando em todos os lugares, vigiando, à espreita, as filas não se mantinham, fundiam-se, misturando Gênios de casebres diferentes, as conversas crescendo mais e mais. Esse era o único momento feliz do dia na cabeça de Morgiana, infelizmente, aquele local também guardava muitas lembranças tristes. 

   Ali os Gênios eram castigados, mesmo sem nada terem feito, para dar o exemplo e mostrar aos escravos quem manda. Dali também se podia ver a cela dos Escolhidos, servos tratados de formas completamente diferentes, Gênios cheios de regalias e que comiam do bom e do melhor. A maioria dos Gênios desejava que o seu dia chegasse, o dia em que seriam literalmente um Escolhido.  Pobres, Ingênuos, não sabem o que os espera. O cheiro de comida do quarto luxuoso impregnava todo o pátio, Gênios apontavam, outros babavam e gritavam por um pedaço de carne, por mais pequeno que fosse, tentativas vãs. Morgiana parecia ser a única que procurava na multidão outra coisa, ou melhor, outro alguém.

   Algo puxou sua surrada camisa, ela diminuiu o passo, até encontrar a atarracada figura de Aisha, uma das poucas mestiças que continuava servindo como escrava.

 - Fiz o que você me pediu, memorizei a entrada e saída dos guardas, o sacerdote também já está convencido, vai nos ajudar. – Ela deu um suspiro. – Por favor, Morgiana, me diga que isso não durara mais muito tempo, não aguento mais conviver com esses idiotas.

Passaram por uma sucessão de guilhotinas, todas com sangue vermelho seco grudado nas lâminas. 

Morgiana lhe lançou um olhar enviesado. 

- Espero sinceramente que esteja falando dos guardas. – Morgiana apontou para sua pele, depois para a de Aisha. – Sua mãe era uma Gênia, assim como a minha. Acha justo que eles continuem aqui trancafiados? Servindo a estes preguiçosos nojentos? – Aisha estava pronta para uma réplica, mas Morgiana a interrompeu. – Pois se acha, não deveria estar aqui me ajudando, não?

A garota parecia pensar no assunto, por fim respondeu:

- Mesmo assim, Morgi, não gosto de estar aqui. Muito menos de relembrar que minha mãe servia a estes porcos, inclusive ao meu pai, que esteja morto e enterrado, há mim pouco importa. – Ela suspirou novamente. – Só me diga que isso acabara logo, esse vai e vem já durou meses, por favor, Morgiana.

Morgiana olhou em seus olhos, era uma criança, nova, novíssima, só queria uma cama macia para dormir e uma boa refeição para comer.

- Antes, me diga se Abbas cumpriu com sua parte, se me disser que sim, talvez os preparativos estejam quase prontos.

Ela suspirou antes da resposta.

- Por que não pergunta diretamente a ele? Vejo seus cachos louros vindo em nossa direção, ali está ele, olhe.

Abbas se juntou as duas. Morgiana não precisou perguntar para saber a resposta, o garoto caminhava com um sorriso inabalável no rosto.

- Os turbantes já estão comprados, foi fácil demais, ou ajudavam, ou morreriam.

Aisha interpôs.

- Você não os mataria de verdade, mataria Abbas?

O sorriso de Abbas não se desfez ao responder.

- Não, sua tola, mataria de brincadeirinha. Não vê a nossa situação? Ou você mata ou morre. – Ele deu um soco no peito e terminou. - É assim que os leões da montanha agem!

- Sinceramente. – Começou Aisha. – Você é um selvagem. Não vê que se iguala a esses monstros que nos prendem aqui? Matam por qualquer motivo e do mesmo modo distribuem castigos insuportáveis a bel prazer. Eu não sei se teria coragem de matar alguém, mesmo sendo um dos guardas. – Ela suspirou. – Pode me chamar de covarde, já lhe disse isso antes Abbas, mas ter uma morte nas costas não é algo para se orgulhar.

   O sorriso de Abbas desapareceu. Sempre se esquecia de que Aisha presenciara a morte de sua mãe na mão dos soldados. Uma Gênia incomum, talvez uma mestiça na concepção de Morgiana, mas nunca viriam a saber. Ela se recusara a servir de bom grado aos senhores do sultão de Agrabah, foi morta, deixando sua filha órfã, aos prantos e muitos suspiros.

 - Aisha, Perdoe Abbas. – Morgiana levantou o rosto da garota. – Ele é um leão da montanha. – Ela repetiu o gesto do amigo, batendo no peito com um soco, conseguindo com isso arrancar um sorriso do rosto da garota. – Não acho que será necessário matar ninguém no dia da fuga, eu realmente espero que não seja necessário, entendeu-me? Aisha?

   A garota assentiu, mas não tiveram mais muito tempo para conversar, a procissão finalmente havia chegado ao grande portão da morte. A estrutura colossal separava o pátio dos escravos do resto da cidade, do mesmo modo que se isolam pessoas doentes das saudáveis. O arco de madeira erguia-se a mais de vinte metros acima do chão, era incrivelmente belo e assustador. A madeira fora talhada com desenhos de Gênios sendo castigados e mortos de diversas maneiras, empalamento, forca e espancamento eram os mais notáveis. A estrutura era toda pintada de vermelho, os mais velhos diziam que no começo não era assim, mas que o sultão ordenou que a cada escravo morto, seu sangue fosse usado para lembrar aos outros o que aconteceria se desobedecessem.

    Em duas torres instaladas nos dois extremos do pátio, o som dos tambores ecoaram, TUM, TUM, TUM. Era o som para a abertura do portão. A madeira, antes uniforme, começou a se separar, abrindo-se preguiçosamente, puxada por correntes do outro lado.  Novamente o tambor tocou, TUM, TUM. Era o som para a unificação da fila, todos os gênios, em total organização em sem nenhuma algazarra, foram para trás do último escravo da fila central. As filas mais próximas primeiro, ninguém falava nada, era o sinal de mais um dia de trabalho começando. TUM, o último toque, o portão da morte estava completamente aberto. Os soldados, todos vestidos com calças infláveis, peito nu e turbantes nas cabeças, guiavam quatro enormes carroças cobertas por panos brancos e puxadas por camelos.

    Três das quatro carroças foram destampadas, revelando uma grande quantidade de pães duros e bolorentos, com moscas aqui e ali, partilhando da refeição dos escravos. O conteúdo fora todo jogado ao chão, cada Gênio era chamado e tinha direito a um único pedaço, os que tentavam surrupiar acabavam com as mãos chicoteadas, mas isso quase nunca acontecia, seja pela maravilhosa qualidade do alimento, seja por mãos chicoteadas tornarem o trabalho futuro mais difícil. Em uma organização impecável, cada escravo teve sua cota de alimento, no final, a fila estava na mesma ordem anterior, todos rijos, esperando pela última fase da iniciação.

    A última carroça se abriu e seu conteúdo foi despejado no chão, milhares de correntes caíram, cada qual esperando para ser colocada no seu respectivo escravo. O titilar das correntes, pensou Morgiana, não precisarão passar por isso por muito mais tempo. Em silêncio, gênio por gênio se encaminhava e era preso por um par de correntes nos pés, depois eram separados em três grupos. Havia os Alugados, assim como os Reservados e os Senhoriais. Os Alugados ficavam expostos em um enorme pátio, passando o portão da morte. Os Reservados já foram um dia Alugados, mas agora estavam a serviço em um só senhor. Por último, os Senhoriais serviam ao castelo, ao sultão e a seus suseranos.

    Morgiana era uma escrava da nobreza desde que nascera, havia muitos junto a ela, dos cinquenta casebres, ao menos dez eram usados para os serviços reais. Devidamente acorrentada, ela foi levada junto aos outros para um canto isolado do pátio, a espera da guarnição que os levariam ao castelo. O sol subia cada vez mais alto no céu, as sandálias gastas de Morgiana começavam a queimar a sola de seus pés, já se podia sentir o principio do escaldante calor do deserto. Os cidadãos livres da cidade chegavam aos poucos, alguns para buscar seus Reservados, outros para alugar o seu servo, seja para o trabalho pesado, ou desejo pessoal...

    Os Alugados ficavam expostos em um palanque no meio da praça, à direita estava Morgiana e à esquerda os escravos com destino fixo. Morgiana não via à hora de sair dali, era horrível ver as cenas que se sucediam sem poder fazer nada. O som dos chicotes era ouvido a todo o momento, os Gênios eram obrigados a ficar nus se assim o alugador desejasse, vendidos como objetos a preço variável, devolvidos ao anoitecer, sem reclamações, sem lamúrias. Viu um velho pedindo para ver duas garotinhas chorosas sem roupa, apalpando suas partes, pouco tempo depois o velho as levava ao seu lado. Rapazes também eram levados, em seu físico forte, para trabalhos pesados e afins.

    De repente, ouve um grito, os escravos começaram a se amontoar, as correntes balançando em uníssono. Morgiana virou-se, era Abbas, havia arrancado o chicote de um dos capatazes, agora apanhava de cinco ao mesmo tempo. Os pés de Morgiana avançaram instantaneamente, mas antes que pudesse completar o terceiro passo foi parada por Kjari, um dos homens que os levavam todos os dias ao palácio.

 - Aonde pensa que vai, escrava? Não acha que seu amiguinho arrumou problemas demais sozinho? – Morgiana ouviu um grito agudo, ameaçou avançar, mas Kjari a parou. – Vejo que está com bastante disposição para ajudar aos outros hoje. – Ele agarrou seu braço. - Vamos, volte para o seu lugar, vai ter muito no que ajudar quando chegarmos ao palácio.

     Arrastada, voltou para a fila. Esperava que Abbas não estivesse muito ferido, seria muito ruim ter que dizer a Aisha que teria de esperar mais para partir. O calor crescia, trazendo uma mistura de suor dos escravos e fragrâncias doces dos comerciantes que cada vez mais chegavam para alugar e levarem seus servos. A multidão da praça ia se desfazendo aos poucos, deixando para trás somente os servidores Nobres, um montante de no mínimo dois mil Gênios, estes agora circulados por vários soldados montados em seus camelos.

    Depois de o último escravo ser levado, a procissão se iniciou. A frente estava Kjari, seu corpo definido e suado se balançava a cada passo do camelo, seu turbante amarelo-dourado o indicava como líder do grupo. A sua esquerda, com o turbante vermelho pendendo para o lado estava Butruz, gordo e fétido. Na direita encontrava-se Kalil, O Obelisco. Um homem enorme e musculoso, mas não como Kjari, muito, mas muito maiores. seus braços cor de âmbar saltavam para fora com grandes veias gordas e pulsantes, seu rosto era quase completamente coberto por uma espessa barba negra, a única coisa que restava eram seus grandes e assustadores olhos. O Obelisco carregava um turbante branco, demonstrando assim ser o segundo na hierarquia dos três que vinham à frente. Atrás, havia no mínimo cem soldados dispostos entre os servos, estes com turbantes verdes, cores verdes para homens verdes.

    O suor inundava o corpo de Morgiana, deixando seu macacão esfarrapado ensopado, colado ao seu corpo. O sol castigava, piorando o cheiro cada vez mais. Subiam as ladeiras disformes da cidade a passos lentos. Butruz não permitia que abaixassem a cabeça, muito menos que conversassem. A qualquer murmúrio, o chicote soava.

- Levantem a cabeça, seus preguiçosos, já não dormiram o suficiente? – Enquanto falava, o couro estalava, mesmo naqueles que nada faziam. – Quem te deu autorização para falar, imundo? Ei! Você aí! Já não lhe disse para levantar essa maldita cabeça?

Era sempre Kjari que intervinha.

- Deixe-os Butruz, não vê que o sol os castiga tanto quanto a nós? 

    Morgiana sempre se perguntou o porquê dele intervir, Kjari sempre se mostrava um soldado diferente dos outros, não gostava de ver os escravos apanhando e sempre interrompia Butruz em sua alegre tortura matinal. Talvez só não goste da carnificina e da voz do velho tanto quanto eu, pensou Morgiana, Não importa o que prometi a Aisha, farei questão de levantar o pescoço de Butruz todos os dias, um tanto a cada dia, até que se envergue totalmente. Era difícil, mas Morgiana continuava tentando manter-se neutra, com o olhar fixo, mas na verdade, seu interior fervilhava. Mantenha o foco Morgiana, falta pouco, muito pouco.

    A cada passo, casas e mais casas eram deixadas para trás, algumas mais bonitas, outras mais simples, mas todas cheiravam a incenso e perfumes florais, que impregnavam todas as ruas. Estavam na parte nobre de Agrabah agora. À noite, Morgiana visitava as periferias e lá o cheiro era o da pobreza e da fome, o povo de lá era quase tão escravo quanto os Gênios, só que de cor diferente. Repentinamente, alguns Gênios começaram a parar, aos poucos todos os caminhantes cessaram. Haviam chegado ao bazar, uma praça redonda no coração da cidade, repleta de vendedores dos mais diferentes produtos. Ao longe, ela pode ouvir a voz de Kjari ressoar por todo comércio.

- Por gentileza, abram espaço para passagem dos escravos do sultão. – As palavras, proferidas com boa educação, não surtiram nenhum efeito, as negociações do bazar continuaram a todo o vapor. Foi Butruz que conseguiu a atenção do povo. Chamou um dos soldados verdes mais próximos e pediu-o seu berrante, o estrondeante som ecoou por toda a praça, Morgiana poderia jurar que seria ouvido no pátio dos escravos. 

 – ABRAM ALAS PARA OS SOLDADOS E MAMELUCOS DO SULTÃO, OU SOFRERÃO A IRA DOS ENCAPUZADOS ALADINS! – Não precisou de um terceiro pedido, os comerciantes, escravos e compradores se agitaram tão rápido que em um minuto a rua estava deserta e pronta para passagem. 

   Todos estavam prontos para voltar a caminhar, quando um homem surgiu do meio da multidão que havia se distanciado, vestia panos sujos e segurava uma criança com uma das mãos. Ele arrastava o garotinho, vindo em direção aos três oficiais, o pequeno chorava enquanto o homem gritava.

- Por favor, senhor, meu filho tem fome, a comida é escassa onde nós moramos, quase não há água, peça ao sultão por nós, por favor. – O homem se agarrou nas patas do camelo de Butruz. - PEÇA AO SULTÃO POR NÓS!

   Morgiana não estava vendo direito, mas o que pareceu ter acontecido foi que o camelo não aguentou o peso dos dois homens e desmoronou. Foi uma confusão só. Os comerciantes correram para ajudar. Kjari desceu do seu próprio camelo para apaziguar a confusão, o Obelisco nada fez. A criança abriu um berreiro ainda maior enquanto Butruz tentava sair debaixo do seu animal, gritando xingamentos e ameaças ao homem que já ia fugindo com o garotinho chorando nos braços.

    Morgiana sabia que o homem não mentia, era a pobreza e a miséria que reinava nas periferias, os altos impostos cobrados pelo sultão criavam cada vez mais ladrões, roubando por necessidade, lutando contra a fome. Morgiana sorria, aproveitando a confusão, vendo o velho babão prometendo colocar todos os soldados a procura do velho mendigo. Depois de tudo ter voltado ao seu devido lugar, continuaram a andar.

    Chegavam ao estágio final da procissão. O palácio já podia ser visto de longe, sua grande cúpula no cume, como uma enorme gota de chuva branca. O gênio de Butruz estava horrível desde o bazar, nenhum escravo se atrevia a dar um pio. As casas ficavam cada vez maiores e bonitas ao chegarem perto do castelo, o calor já estava quase insuportável quando Morgiana finalmente pode ver o portão do jardim do palácio.

    Todo ornamentado em ouro e pedras preciosas, por ser muito pesado, sempre era aberto por magia. Morgiana observou os rubis e diamantes oscilarem enquanto a estrutura se rachava em duas metades, revelando Rivu, o conselheiro real.

    O homem era novo pro cargo que ocupava. Em seu ombro pendia a capa que lhe dava seus poderes e junto dessa a vida de um Gênio. Os soldados se dissipavam e adentravam ao jardim real deixando os escravos a revelia e sem nenhuma proteção, mas todos eles sabiam que não haveria brecha para fuga. Rivu falava alguma coisa com Kjari antes do capitão se juntar aos outros soldados. Por fim, Rivu parou à frente de todos os Gênios, levantou as duas mãos e as foi juntando gradualmente. Como por uma força invisível, os escravos foram se amontoando cada vez mais, empurrando-se uns aos outros até que a fila ficou com a menor espessura possível, era quase impossível respirar. Então o Encapuzado parou e com um estalo dos dedos todos estavam presos, o escudo invisível os manteve juntos e juntos todos entraram no jardim.

    O Jardim das Fadas, segundo o príncipe Fadil lhe contara. O solo fértil tinha sido trazido da Terras Das Fadas na barriga de cinquenta gigantes. Quando chegaram a Agrabah os gigantes regurgitaram a terra e depois foram mortos pelos Encapuzados Aladins. O príncipe dizia que até hoje o que mantinha a terra fértil eram os gigantes enterrados nela.

    O palácio era todo pintado de branco e se erguia em uma estrutura enorme à frente deles, havia três torres, duas largas nas extremidades que terminavam com uma cúpula dourada e uma ainda maior no meio, a edificação mais bela da cidade. Morgiana e os outros foram levados por Rivu para a parte de trás do castelo, nunca seria permitido a um escravo entrar pela porta de frente. O escudo finalmente foi desfeito, deixando os escravos espalhados em meio à grama. Ali havia algumas estátuas de Encapuzados importantes e árvores cheias de frutos estranhos aos olhos de Morgana. Aos poucos, serviçais livres chegavam e levavam os escravos que mais satisfaziam suas necessidades. Para sorte de Morgiana, havia sido escolhida para trabalhar na cozinha, não poderia ter sido mais perfeito.

    A cozinha real era enorme, com vários fornos alimentados a lenha e uma dispensa invejável. O café da manhã ainda não havia sido servido, sendo essa a chance perfeita para Morgiana contar as novidades ao príncipe Fadil. Na mesa reservada para o desjejum real ela pegou a bandeja direcionada ao príncipe. O vai e vem de gente fez com que ela passasse despercebia, chegou à minúscula porta que levava para o salão real e a abriu. O silêncio a engoliu. 

    Havia se esquecido de como estava suja e suada. Colocou a bandeja no chão e passou as mãos repletas de névoa mágica pelo corpo, em pouco tempo estava limpa e seus trapos haviam se transformados em uma grande burca, que escondia não só seu corpo, mas também seu rosto. Os escravos não poderiam ser vistos circulando por algumas partes do palácio.

    Recolheu a bandeja e pôs-se a andar. O salão real era colossal, o chão era todo forrado por tapetes de cetim de variadas cores e nas enormes paredes estavam pendurados esplendorosos quadros, ora retratando a família real, ora batalhas ganhas. Morgiana subiu a escada de mármore com cautela para não tropeçar no resto do pano que pendia da burca, virou um corredor a direita, subiu mais uma escada, outro corredor, virou à esquerda e finalmente chegou a silenciosa ala do quarto do príncipe Fadil. Tudo era calmaria, pois quando bateu na porta pensou que acordaria todo o palácio.

- Entre. – A voz do príncipe era baixa e melancólica, sonolenta.

   Morgiana entrou. O quarto não era enorme como imaginara antes de entrar a primeira vez ali. O príncipe estava deitado em um tapete no chão, lendo um livro. Ele se virou rapidamente para olhar quem havia mandado entrar.

- Pode deixar a bandeja no chão, obrigado.

   Obrigado... Com certeza não era uma palavra que Morgiana ouvia constantemente.

- Príncipe Fadil. – Morgiana retirou o véu da burca, deixando seus enormes cabelos pretos caírem sobre o pano branco. O príncipe virou e sorriu, com um salto estava rapidamente em pé, puxou Morgiana para perto e fez com que ela sentasse com ele.

- Não aguentava mais de aflição para saber como os planos estão correndo! Me conte, Morgiana, está dando tudo certo? O sacerdote vai nos ajudar? As carroças, por Aladim as carroças, estão prontas? Você já contou a eles? Morgiana, me conte tudo! 

Morgiana não pode evitar sorrir ao ver a euforia do príncipe. 

– Se acalme meu príncipe, por enquanto, está tudo certo. – Ela parou e olhou bem para ele. – Só temos de esperar o dia do seu nascimento, do seu aniversário, para irmos embora para sempre.

   O príncipe se levantou e começou a rodopiar pelo quarto, era extremamente flexível. E como um macaquinho, fazia acrobacias como ninguém. Morgiana não estava tão feliz assim, ainda tinha medo do que poderia acontecer se desse alguma coisa errado, se a festa fosse cancelada, se fossem descobertos; se, se, eram muitos se. Fadil parecia ter percebido a aflição em seu rosto, parou de pular e sentou-se ao seu lado, sorrindo seu melhor sorriso.

 - O que te aflige, Morgi? Deveria estar feliz! – O príncipe pegou em sua mão. – Não é muita sorte que tudo esteja dando certo? – Ele olhava-a de uma forma doce, quase terna. – Sabe, meu pai me disse uma vez que Aladim tinha uma amizade maravilhosa com seu gênio e que isso foi sua ruína. Mas nós sabemos a verdade, Jasmine, se não fosse por ela... – O príncipe parou, serrando os punhos. - Você não acha? Todos nós deveríamos ser livres! Vai dar tudo certo! Eu tenho certeza que vai!

Morgiana olhou para ele e sorriu. Eu realmente espero que sim, meu príncipe, pensou. Eu realmente espero que sim.





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Re: Era Uma Vez

Mensagem por Mag em Dom 4 Ago 2013 - 22:56

Eita, Pok, aleluia li esse capítulo, né? Agora falta correr pra fic do Rush. õ/

Olha, eu só tenho elogios. A sua escrita está maravilhosa, vi no máximo três erros muito inúteis que não perderia nosso tempo e sua paciência mostrando-os aqui. Primeiro, o nome dessa personagem me lembrou Morgana, óbvio, mas aí com o decorrer na narrativa eu achei tão interessante! o.o Essas ideias são de Once Upen a Time? Essa releitura, ou reescrita, da história do Aladim ficou muito interessante. Os gênios foram escravizados, e apareceram esses mestiços (hibrido de ser humano com gênio, mesmo?). Quanta referência e comparatividade com a escravidão racista. Muito legal. Depois quero entender como veio a acontecer isso tudo de verdade, já que isso sobre a Jarmine ter sido a malvada tá meio mal contado, parece... Ah, e esse palácio descrito é o Taj Mahal? Eu sinceramente não lembro se aquele palácio do desenho do Aladim pela Disney era o Taj, tenho minhas duvidas, mas as semelhanças são enormes. Se souber, depois me diz. Amo o Taj Mahal, e a música, tanto pela voz do Jorge Ben Jor quanto da Ellen Oléria, são, ui, lindas demais. Se bem que to tão pro lado da Ellen esses dias...

Tem tanta coisa pra entender. Esses encapuzados são, simplesmente, magos? Pessoas que sabem fazer magia? Eu lembro que no prólogo, as personagens principais eram "encapuzadas"; tem alguma relação com esses desse capítulo atual? To cheio de duvidas, e como vai ser narrativa por POVs, e provavelmente você ainda vai inserir vários outros personagens de outros contos de fadas, tudo vai ficar mais complexo ainda... Mas tudo bem, com o tempo eu vou pegando, o enredo vai se construindo, tal...

Então, Pok, sua escrita está simplesmente excelente, não tenho do que reclamar mesmo. Eu até lembrei do meu professor de literatura, ele usa muito a expressão "à revelia" quando tá dando aula (imagina isso falado, é engraçado velho), então quando li aqui até dei um risinho. Enfim, parabéns de verdade e espero os próximos caps, já que pelo jeito você tá bem avançado.

Até.


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Re: Era Uma Vez

Mensagem por Pokaabu em Sab 21 Set 2013 - 2:01

Black: Fanfic reaberta temporariamente em decorrência de ser a vencedora do FOTM.
lol! 


Mag chupadaça. O castelo não chega ao explendor do Taji. O nome eu roubei do anime Magi, se pronuncia Morguiana, com uma puchada no r, legal né? 

Obrigado Rush por ter votado em mim.





Era tudo tão macio, ela rolava para lá e para cá, apertava, suspirava, cheirava. Uma cama enorme repleta de milhares de travesseiros, todos eles quentinhos, fofinhos e cheirosos. Alice se pôs de pé e observou ao redor, o acolchoado da cama se estendia ao infinito no enorme aposento branco. E por tudo que é mais sagrado, ela nunca mais queria sair dali. Em pé, começou a pular de um lado para o outro einacreditavelmente, não se cansava. Como numa cama elástica, pulava alto, jogando travesseiros para cima, desequilibrava-se, caindo, recomeçando, caindo novamente. Deitou-se com os braços abertos, sorrindo. Pra ficar realmente perfeito agora só faltava uma deliciosa barra de chocolate. Assim que pensou naquilo viu que algo havia caído ao seu lado, o som da embalagem era inconfundível. Pegou a guloseima, não tinha marca nem escritos referentes à nutrição e coisa e tal, mas era chocolate, e não se deve desperdiçar chocolate. Devorou o doce em poucos minutos. Delicioso., pensou. Outro sorriso se abriu em seu rosto, não tinha sede, nada, nadinha. Estou no paraíso? Se eu morri, me arrependo de não ter morrido antes. Já que estava ali, por que não aproveitar? Alice começou a imaginar os pratos mais deliciosos que poderia comer, alguns dos seus favoritos, outros vistos na TV. Muito queijo ralado, por favor.
    Com o olho fechado foi criando seu próprio menu: Lasanha, pudim, mousse de maracujá e muito, muito sorvete. Abriu as pupilas e lá estavam, em porções mais que satisfatórias, todas as delicias que havia imaginado. Atacou primeiro o pudim. Não é tão gostoso quanto o do Okiru-san, mas tudo bem. Quando se preparava para passar à lasanha um zumbido chegou ao seu ouvido, longe, como uma batida de música eletrônica. Deu de ombros e continuou a comer, quanto mais ingeria, mais o som aumentava e se tornava mais nítido. Pratos limpos, o que ela queria agora era um enorme milk-shake de morango e voltar a dormir. Fechou novamente os olhos e esperou. Voltou a olhar, desejosa, mas franziu o cenho assim que viu, no lugar do delicioso milk-shake de morango, um relógio de pulso à lá camelô. Pegou o dispositivo na mão, marcava seis e quinze, sentiu uma pontada na cabeça, como um aviso. De repente, outro relógio caiu, depois mais outro e mais alguns. De todos os tipos e todos os tamanhos, estavam tomando todo o lugar, saindo do nada e caindo em cima de sua cabeça. O frenesi era tanto que nem havia notado que a música agora estava a toda altura, era uma batida eletrônica que ela curiosamente conhecia. Os relógios continuavam caindo e caindo, estava se afogando no tempo, literalmente. Só pedi um milk-shake, será que nem a isso uma pobre adolescente tem direito? Tentava se sobrepor aos malditos aparelhos quando ouviu um barulho, e seu coração por um segundo parou. Arregalando os olhos, viu-se caindo pelo buraco negro que a cama havia deixado ao se rasgar pelo peso dos relógios. Era tudo negro, não conseguia enxergar nada, a única coisa que ouvia era o tilintar dos aparelhos batendo um nos outros e tic toc, tic toc.
    Era uma queda longa e gelada, cada vez mais fria. Mesmo caindo, não achava que iria morrer. Não sabia como, mas conseguia visualizar algumas cenas de instantes em instantes, uma mulher andando por uma casa estranha, um espelho brilhante, ruídos como murros em portas se misturavam ao tic toc, tic toc. A última coisa que ouviu foi uma voz doce de mulher. “É só atravessar, meu amor, logo papai e eu estaremos juntos de você, vá, Alice, é só atravessar... Eu te amo.” Alice fechou os olhos pela última vez e se entregou. “Eu te amo mais, mamãe, eu te amo muito mais.”
Acordou.
     O despertador do celular tocava loucamente. Alice levantou-se com um pulo e deparou-se com a cena de Sushi dançando ao som da música só de cueca samba canção no meio do quarto. Esfregou os olhos para poder ver melhor e pegou celular, marcava seis e trinta.
 - Seis e trinta?! – Ela olhava pasma para o visor do celular, enquanto Oliver colocava a cabeça para dentro da porta do quarto, penteava o cabelo enquanto sua boca, cheia de espuma, segurava uma escova de dente. 
 Sheis e tinta. Dominhoca. – Falou cuspindo espuma para todos os lados, Sushi riu e Alice não pode deixar de rir também.
     Ela levantou jogando tudo para cima e correu para o corredor, virando à direita, direto para o banheiro, que graças ao bom deus pai não estava ocupado.
 - Sabe, Oliver. – Gritou ela do banheiro. – Você é um amigo maravilhoso, entende? Daqueles que excedem as expectativas? Não dava pra ter me acordado? – Ela ligou o chuveiro e entrou com tudo, a água gelada fez com que ela tremesse. – MUITO OBRIGADA! A ÁGUA ESTÁ ÓTIMA, OLIVER, EU TE AMO.
     Ele encostou a cabeça perto da porta para responder.
- Eu nem sabia que você conhecia essas palavras, “excedem” e “expectativas”. Estou orgulhoso, sério, muito mesmo. – Ela pegou o frasco de xampu e apertou, só saiu ar. Alice estava prestes a explodir e Oliver continuava a falar. – Quanto ao chuveiro, quebrou, o Sushi tentou colocar o Shitake para fazer bungee jumping... – Ela apertou o frasco até o fim e conseguiu extrair uma porção suficiente para o seu cabelo, nessas horas agradecia por ter decidido deixá-lo curto. O garoto continuava a falar. – O Shitake ta bem, não imaginei que fosse perguntar, já que a princesa não responde, gostaria de lembrá-la que hoje temos prova de história, primeira aula.
- BUTA QUE O BARIU. – Agora era ela que estava com a escova de dente na boca.
- Já arrumei o seu material, não se acostuma, beleza? O Okiru-san também já fez o café da manhã. Se não for pedir muito, Vossa Majestade poderia agilizar o banho?
    Ela saiu em disparato do banheiro e correu para o quarto novamente.
- VOU FALAR ONDE VOCÊ VAI ENFIAR O SEU SARCASMO!
    Nem pode ouvir a resposta. Enxugou-se rapidamente, olhando para o espelho pendurado na parede, quando se virou pegar o uniforme no armário, Sushi a olhava, nua.
- Sushi, você tem cinco segundos para sair desse quarto e ser arrumar para o colégio! AGORA!
    Vestiu-se o mais rápido possível. Precisava de quinze minutos para chegar à escola e não ser barrada na entrada. Quinze minutos e estava salva. Arrumada, com a toalha em cima da cama e a mochila nas costas, saiu do quarto e virou à esquerda, o corredor levava a velha escada de madeira e essa levava para o andar de baixo, à padaria do Okiru-san. Shitake veio ao seu encontro no meio do caminho, o cachorrinho Basset Dashound, vulgo salsichinha. O pequenino estava lá desde que ela se lembrava, parecia bem feliz aquela manhã, apesar de sofrer com as experiências de Sushi. Acompanhada pelo cãozinho, desceu as escadas, o ranger familiar os acompanhando por todo o percurso.
    De longe pode sentir o cheiro dos bolos, pães e guloseimas da padaria sendo preparadas. Os quatro fornos exalavam o mais maravilhoso dos perfumes. Alice lembrou-se do seu sonho, ou o que conseguia realmente se lembrar. A padaria do Okiru-san era a principal padaria do bairro, por isso nunca faltavam clientes logo pela manhã. A prova disso foi que ao terminar de descer as escadas Alice foi abordada por um cliente, cliente esse que já estava bravo pela demora do atendimento. Serviu-o com seu cafezinho, seu pão de queijo e muitas “mil desculpas, senhor”. Okiru-san também estava muito ocupado, então deu um beijo no rosto do velinho e saiu da parte comercial e entrou, pela parte de trás, na cozinha propriamente dita. Ali os cheiros eram bem mais acentuados, assim como as tentações mais palpáveis. Me pedem para viver em uma padaria, eu, uma adolescente louca por doces. No meio da sala havia uma mesa média feita de madeira, bem antiga, com um conjunto de cinco cadeiras. Em uma dessas cadeiras que Oliver sentava.
- Faltam vinte minutos. Tem chocolate quente no micro-ondas. Alice, você esqueceu-se de pentear o cabelo. Está parecendo aquele cachorro verde do cebolinha. 
Ela olhou seu reflexo em um dos fornos. Realmente havia se esquecido de pentear o cabelo.
- Falou o garoto que ficou com a Jujuzinha-passa-o-rodo. – Ela pronunciou a frase pausadamente, vendo a cara de Oliver se fechar ao fazê-lo
- E o que isso tem haver com o cabelo? Em, sem noção? 
- Nada, eu só queria te atormentar mesmo. Me empresta o pente ai, ou Don Juan. 
    Ele pegou o pente de cima da mesa e jogou-o com toda força nela, reflexo por reflexo, ela abaixou e o objeto foi parar em cima de uma das bancadas. Alice pegou-o e começou a pentear-se, observando seu reflexo no espelho do micro-ondas, seus olhos azuis estavam acomodados por feias olheiras negras. Não demorou muito na arrumação, mas uma das maravilhas de um cabelo liso e curto.
    Sushi adentrou ao recinto, havia colocado a camisa de uniforme do lado contrário. Alice avisou-o aos risos, pegou um pão francês da cesta, o garotinho imitou-a. Oliver já os esperava do lado de fora, ela engoliu o mais rápido que pode o achocolatado e o pão, Sushi foi mais rápido e ao contrário dela, não sujou a blusa. Saiu desabalada pela porta, assustando os clientes e arrancando um suspiro de Okiru-san.
- Ittekimasu! Okiru-san. – Beijou o velhinho carinhosamente e lhe deu seu melhor sorriso. 
Sushi fez o mesmo e depois se juntou a ela. Tropeçando em uma das mesas e pedindo desculpas ao cliente, saíram pela a porta. Encontraram um Oliver bufante.
- Dez minutos! – Oliver passava a mão pelos cabelos, um sinal frequente de preocupação.
- Então vamos. Não me olhe com essa cara, Oliver, é só correr que dá tempo. – Ela segurou nos ombros de Sushi. – Sushi, por favor, vá direto para sua turma e não fique perambulando pela escola.
    O garoto assentiu e juntos os três começaram a caminhar. Os passos foram ficando cada vez mais apressados, até que sem perceber pegaram-se correndo e rindo um da cara do outro. Casas, árvores, arbustos e pessoas ficavam para trás.  Ela podia ouvir o restolhar das folhas enquanto corriam, um som tênue, relaxante. Alice olhou para cima, usando a palma da mão para proteger o rosto, o sol subia preguiçosamente ao seu lugar no céu, deixando o clima úmido do alvorecer ainda mais agradável. Ela começava a suar e isso era uma das coisas que mais detestava, estavam bem mais perto do colégio agora, então resolveu diminuir o passo. Apoiada nos joelhos, perguntou:
- Quanto tempo?
- Cinco minutos, a professora de História não deixa entrar depois do horário, por que parou de correr?
- Ela sempre chega atrasada, a Lindovaca. – Alice mordeu os lábios e voltou a caminhar. – Qual o assunto da prova mesmo?
Oliver revirou os olhos antes de responder.
- A Grande Guerra.
- Qual das? – Perguntou, esperançosa.
- A grande. – Respondeu ele, balançando a cabeça.
Alice crispou os olhos e olhou-o com aquele olhar “Eu sei que você estudou” ele respondeu com o olhar “E daí” ela deu um sorrisinho de “Então me passa a cola” e ele olhou pro lado e balançou a cabeço negativamente.

Acabou, estou perdida.
Oliver voltou a consultar o relógio.
- DOIS MINUTOS!
    Os três voltaram a correr o mais depressa que conseguiram. Alice já podia ver as barras de ferro que cobriam a fachada e o jardim florido do colégio. O sinal tocava enquanto eles corriam para as salas de aula, por sorte conseguiram entrar no último momento. Sushi abandonou os dois garotos e virou à direita, indo para a ala do ensino fundamental. Os dois adolescentes viraram à esquerda e depois ao sentido contrário, subiram uma pequena escada e... Ufa.  Tiveram que dar mais uma carreira para chegar a tempo. A Sra. Lindomara estava do outro lado, no fim do corredor. Os garotos e a mulher pararam de súbito e se mediram, como num filme. Os dois pensaram que ela correria também, a cara dela demonstrava esse desejo. Mas como professora, deveria se mostrar melhor, superior.  Depois de muita correria, os dois alunos finalmente conseguiram entrar na sala de aula.
    Ofegantes, pararam para respirar na entrada da sala. Alice colocou a cabeça para fora e viu que a mulher magrela se aproximava cada vez mais. Empurrou Oliver, mas ele estava muito ocupado sorrindo bobamente para Jujuzinha-passa-o-rodo. Empurrou-o mais forte e deu um beliscão. Ele deu um pulinho afetado, fazendo com que a sala toda caísse na gargalhada e se dirigiu ao seu lugar junto à Alice, que fez uma careta imitando sua babaquice, fazendo a turma rir ainda mais.
De repente, todos os alunos silenciaram. 

    A mulher entrou na sala de cara fechada e a passos lentos, olhava para a turma como se a última coisa que ela quisesse naquele momento fosse estar ali, e como todos sabiam, o sentimento era recíproco.
    Ela parou e com uma força desnecessária deixou cair as provas em cima da mesa. Alguns alunos começaram a consertar a postura, outros escreviam coisas nas mesas desesperadamente e também havia aqueles que mostravam uma calma extremamente excessiva e irritante. A mulher cruzou os braços e olhou para toda a turma com sua carranca diária, parando por um longo tempo em Alice. A garota deu uma piscadinha e mandou um selinho para a professora, o que pareceu deixá-la bastante envergonhada, pela face vermelha como um pimentão que passou a exibir. Alunos e professoram ficaram se encarando por um longo tempo, pena para os alunos, que eram obrigados a segurar a risada por conta do visual da magricela. Seus cabelos despenteados combinavam com o grande xale vermelho que usava no pescoço e para completar o conjunto bizarro entrava a extensa saia jeans. Quando a velha cansou de observá-los, a ladinha começou.
- Sim, sim. – Ela começou a andar pela sala. - espero que vocês tenham estudado bastante, a prova está imensuravelmente complicada. – Ela sorriu, vendo como a maioria das crianças se mexia desconfortavelmente em suas carteiras. – Sim, sim, muito difícil, não acho que muitos de vocês possam passar na minha matéria. – Sua risada maquiavélica foi de orelha a orelha. – Vejo-os na recuperação, sim, sim, com certeza.
    A professora recolheu os testes e começou a distribuí-los para a turma. Colocava-os calmamente nas mãos dos alunos, olhando-os com um olhar frio e penetrante. Às vezes Alice questionava-se sobre a felicidade daquela mulher depender da tristeza dos outros. Chegara à conclusão de que a professora era revoltada com sua vida e tentava inutilmente em seus cinquenta minutos de aula criar clones seus, subjugá-los, deixando-os melancólicos e sem vontade de viver, tentativas vãs. Oliver balançava suas pernas freneticamente atrás dela, fazendo sua cadeira tremer também, ela lhe deu outro beliscão e ele outro pulo, por sorte, a Sra. Lindomara estava muito ocupada para prestar atenção na brincadeira dos dois amigos.
    Finalmente havia chegado sua vez, como os outros, recebeu sua folha de papel e o pesado olhar da professora, devolveu-o com uma espreitada mais fria ainda, com uma das sobrancelhas levantada e sua melhor cara de deboche.
Não soube como, mais foi aí que tudo começou. 
De repente, as luzes se apagaram, como era dia a sala não ficou totalmente escura, mais a súbita queda de energia foi o suficiente para deixar todos apreensivos. Nenhum ruído era ouvido, todos se olhavam, duvidosos. Então Alice ouviu um som estranho, como um inseto batendo suas asas e parando no mesmo instante. Virou-se para o teto e viu, uma única lâmpada piscava e apagava-se incessantemente, como se lutasse pela vida, tentando a todo custo permanecer acesa. O som era quase um imã, todos olhavam, até que a lâmpada parou de piscar e apagou-se. Os garotos lançaram-se olhares interrogativos. Até a Sra. Lindomara parecia assustada, a professora caminhava devagar entre as crianças, preparava-se para falar quando a lâmpada explodiu. E uma a uma todas as lâmpadas começaram a estourar, Alice abaixou a cabeça e uma garota gritou. Os ruídos que ouvia eram secos e altos, o cheiro de queimado impregnou o ar e ela pode sentir os caquinhos na sua cabeça. Quente, pensou. A última lâmpada havia estourado e todos os alunos levantavam-se, olhando estupefatos para a professora, a mulher havia se contorcido e entrado embaixo de uma das pequenas carteiras. Se não tivesse assustada, Alice teria rido daquilo.

- PROFESSORA! – A atenção de todos foi levada à porta. A Sra. Lindomara ficou tão assustada que bateu a cabeça na sua mesa-proteção. – O DIRETOR QUER VÊ-LA NA SALA DELE, AGORA, NESTE INSTANTE, NESTE MOMENTO, POR FAVOR!

    Por que ele está gritando? O faxineiro estava estacado na entrada da sala de aula. Seu uniforme negro fazia um par perfeito com sua cara sombria e flácida, parecia um robô, feito pedra, de tão ereto. A professora se recompôs e deu um longo olhar no homem antes de sair. Alice olhou para Oliver e esbugalhou os olhos, ele estava branco, pálido, como leite. Uma garota que sentava nas carteiras da frente da turma estava quase aos prantos, enquanto os outros alunos continuavam abobados, se perguntando o que havia acontecido. A professora saiu da sala e o faxineiro entrou. Ele virou-se num giro perfeito e começou a gritar.
- POR FAVOR, LEVANTEN-SE PARA QUE EU POSSA LIMPAR O LOCAL. – Todos se levantaram e ficaram olhando para a cara do velho, mas ele não retribuía, seus olhos olhavam para o tudo, como se nada vissem. De repente, ele deu outro giro, agora apontando para fora da sala de aula. – POR FAVOR, ESPEREM FORA DA SALA DE AULA. – Os alunos caminharam, quando todos já haviam saído, o homem fechou a porta com um estrondo. Alice olhou para as portas das outras turmas, parecia que tudo estava normal, nenhuma das outras partes da escola havia sofrido o blackout.
    Oliver veio ao seu encontro, com o cenho franzido. O resquício do medo ainda estava estampado em seu rosto. Alice se perguntou se também parecia tão assustada.
- O que acha que foi isso? – Ele nem esperou ela responder. – Acho que só aconteceu nesta sala. – Ele apontou para as outras portas. – Não é estranho? Eles nem parecem ter ouvido o barulho.
    Alice também pensava nisso, mas sua face se iluminou, lembrando em com aquele acidente não pudesse ter vindo em melhor hora.
 - Será que ela cancelará a prova? – Ela soltou de uma vez, fitando o garoto com olhar pedinte. Oliver suspirou antes de responder.
 - Eu não acredito que você ainda está preocupada com isso. – Ele consultou o relógio. – Faltam vinte minutos para acabar a aula. Acho pouco provável que a professora possa aplicar...
    Sua frase foi interrompida com o barulho da porta sendo escancarada novamente.
- A prova. – Concluiu.
- OBRIGADO PELA ESPERA, PODEM ENTRAR AGORA! – Assim que o velho faxineiro terminou de falar suas pernas bambearam e ele caiu de joelhos no chão. Alice correu para ajudá-lo.
- O senhor está bem? – Ela ajudou a levantá-lo. 
- To bem sim, AI! – O homem levou a mão à cabeça e fechou os olhos com força. 
- Eu vou levar o senhor até a cozinha. – Alice já se preparava para começar a caminhar mais o velho a parou.
- Num precisa não, sê é muito gentil, mas eu tô bem já, obrigado jovenzinha.
    O homem, numa súbita melhora, começou a andar pelo corredor, sozinho. Alice espreitou os olhos, pensando naquilo tudo, por fim chegou à conclusão de que o adiamento da prova da Sra. Lindomara valia à pena. Pensando no cão. A professora surgiu no fim do corredor e estava acompanhada, muito longe para enxergar, pouco tempo para entrar e não tomar uma advertência.
- POVO. – Ela gritou, fingindo uma voz mais grave. – A LINDOVACA TA VINDO! CORRE!
    Os garotos se amontoaram e rapidamente entraram na sala de aula. Quando a professora chegou todos estavam sentados em seus respectivos lugares, comportados e quietos como anjinhos. A professora parecia muito consternada com toda a situação, entrou calmamente na sala sem olhar para ninguém, atrás dela vinha um garoto, quase da altura de Oliver. Tinha um cabelo castanho penteado em topete, os olhos eram claros, nem verde nem castanho, um meio termo. Mas foi quando ele sorriu que Alice derreteu. Bonito, muito bonito. Sua apreciação foi interrompida pela voz estridente da Sra. Lindomara.
- Turma, este é Peter. Ele vai estudar conosco a partir de hoje. – A mulher fitou o garoto de cima a baixo. – Gostaria de se apresentar? Peter.
Peter sorriu. Alice viu um garoto do seu lado colocando o dedo na boca como se fosse vomitar.
- Ok. – Começou ele. – Meu nome é Peter, vim de São Paulo pra cá, mas nasci aqui, no Espírito Santo. – Ele parou de falar de repente. Está esperando palmas? Ou um coral de: SEJA BEM-VINDO PETER?. Pensar naquilo fez Alice rir. O garoto começou a ficar vermelho, muito vermelho. Ouviu uma voz de menina dizendo “que fofo” com aquela voz de gata no cio. E então ele finalmente concluiu – E... espero fazer bons amigos, é isso. – O garoto abaixou a cabeça e sentou-se exatamente ao seu lado.
    Alice se preparava para puxar conversa com o garoto novo, mas Lindovaca a interrompeu.
- Por decorrência dos acontecimentos – A professora engoliu em seco. – A prova será cancelada, aplicarei na próxima aula. – Ela não podia ter escolhido momento pior para dizer aquilo, os alunos ficaram em polvorosa e os cochichos começaram a todo o vapor. – BASTA! – A mulher gritou. – Oliver, junte as provas e coloque-as em cima da minha mesa. Quero um trabalho sobre Primeira Guerra Mundial na minha mesa para amanhã, no mínimo vinte folhas, com foco nas consequências do conflito para o começo da Segunda Guerra Mundial. Individual.
Mulher dos demônios.
Alice esgueirou a cabeça para o lado de Peter.
- Ei! Você! – Queria dar uma bronca nele por tê-los feito perder a prova, ela nunca havia imaginado que um dia ficaria infeliz por conta disso. Mas quando o garoto sorriu, não resistiu. A frase mal saiu da sua boca. – Obrigado por nos fazer perder a prova...
Ele sorriu ainda mais antes de responder. Seu hálito era fresco, uma mistura doce e refrescante, como menta e cereja.
- Não há de quê. – Ele consertou uma mecha de cabelo que pendia no olho de Alice – Na verdade, não há o que agradecer.

@3DSFood: FanFic trancada por inatividade. Caso queira re-abrir a mesma, envie uma MP para qualquer FFM.
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